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Artigos    
    Uma Aventura pelo Centro de Saúde
 

Este é um breve relato da minha aventura dia 24 de Janeiro de 2001 pelo Centro de Saúde. Só quando estas coisas nos atingem é que damos conta do estado da Saúde neste país, e mesmo que estas linhas não mudem nada (provável...), pelo menos fica aqui a mensagem.

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O estado e qualidade dos Serviços de Saúde é uma realidade que todos conhecem, ou pelo menos já ouviram falar. Fazendo os possíveis por os utilizar um número mínimo de vezes, eu não tinha realmente a noção de como as coisas vão mal até ser forçada a recorrer às urgências do Centro Médico da minha área de residência, Linda-a-Velha, ontem dia 24 de Janeiro de 2001 (séc. XXI!). Já lá tenho ido várias vezes ao longo dos últimos anos, mas ainda não havia lá estado depois de sair aquela espectacular directiva que obriga as pessoas a levarem os seus filhos doentes ao Centro Médico, antes de irem ao hospital. Foi realmente uma experiência diferente.

Como já há dois dias que andava a coxear com uma dor repentina na perna, resolvi dar um pulinho às urgências quando saísse do trabalho. As urgências abrem às 18:00. Já sabia que não podia ir antes, pois só a partir dessa hora é que atendem doentes, antes são só consultas normais, marcadas com antecedência. Aparentemente as pessoas naquela zona só podem ter urgências à noite. Cheguei ao posto eram 20:00.

Quando lá cheguei, inscrevi-me e recebi uma ficha, a qual fui colocar no cesto das urgências. Com um certo temor reparei que a pilha de fichas já era considerável. Estavam umas 20 pessoas à minha frente, o que nunca me tinha acontecido, pois normalmente eram só umas 6 ou 7. Enfim, pensei eu, hoje toda a gente resolveu adoecer. As duas salas de espera estavam a abarrotar de crianças, o que achei estranho, não me lembrando das novas "regras". Resolvi esperar em pé, com o estomâgo a começar a reclamar.

Com três médicos a atender, o ritmo de atendimento estava rápido, e das 20:00 às 21:00 foram atendidas 14 pessoas. Já estava eu a esfregar as mãos de contente e a pensar no jantarinho quando sai uma médica dos gabinetes para a sala de espera, coisa estranha e nunca vista. Logo a seguir sai um médico e, atravessando o centro e as salas de espera, saem porta fora. Ficámos todos a olhar uns para os outros,sem perceber, e aos poucos fomos aventurando hipóteses: "Foram tomar café, de certeza", foi a frase que correu pela sala de espera, e entre sopros e palavras de indignação e o choro das crianças, resignámo-nos a continuar à espera, agora só com um médico.

Esperámos, esperámos, e não havia meio dos médicos retornarem. Aproveitando a saída do médico do seu gabinete para ir buscar mais uma ficha, perguntei-lhe se os outros médicos atendiam. Pergunta muito estranha, com certeza, pois ficou a olhar para mim com um ar muito espantado. Lá respondeu confirmando que sim, realmente os médicos atendiam. Fiz um gesto de assentimento e, com o meu melhor sorriso, voltei à carga, perguntando quando é que eles fariam isso. A resposta foi "quando puderem". Mais um gesto de assentimento da minha parte (afinal, não é saudável antagonizar um médico...), e ao voltar para o seu gabinete ouvi o seguinte comentário do já citado profissional de saúde: "Também têm de comer, isto não é uma escravatura!"

Pronto, estava resolvido o mistério. Afinal os senhores, coitados, não tinham ido beber café, mas sim jantar, e logo os dois ao mesmo tempo. E nós, profissionais de outras áreas, que não temos vidas de pessoas nas mãos, e muitas vezes comemos uma sandes no trabalho para despachar, é que somos burros, de certeza. É sempre agradável saber estas coisas, principalmente quando ainda não se jantou.

Continuando a espera, os comentários voaram. Só com um médico a atender a lista de espera ia crescendo cada vez mais. E pensam que as crianças tinham prioridade e/ou que eram atendidas primeiro por uma enfermeira para lhes tirar a temperatura e outras coisas? Ilusões, ilusões, isso só acontece nos anúncios publicitários. As crianças esperam como os adultos, e é se querem. E depois não querem que as pessoas levem os filhos ao hospital...

3 quartos de hora passaram, e foram atendidas 3 pessoas. Era uma vez uma média. Os miúdos iam berrando cada vez mais (tentem vocês aguentar um miúdo sossegado durante 2 horas, com febre!), e eu já estava a ver a minha vida a andar para trás quando os 2 médicos resolveram finalmente reaparecer, para gáudio de todos os presentes. 2 minutos depois, fui chamada pela médica jantada.

A médica entrou no gabinete comigo logo atrás e sentou-se. Com um olhar promoveu-me a porteira, e, coxeando, lá fui fechar a porta. "Diga", disse ela, e eu disse. Tinha uma dor na parte de trás da perna há já dois dias, que doía quando fazia força e que estalava quando descia escadas. Sentada estava ela, e sentada continuou a ouvir isto, com uma mão no colo e a outra numa caneta, já a escrevinhar num papel de receitas. Resolvi levantar-me e apontar o sítio onde me doía, talvez ela quisesse saber e examinar, ou qualquer coisa do género, mas sem grande resultado. A minha perninha mereceu um olhar de soslaio, e antes que me pudesse sentar já ela estava a dizer que tinha de tomar os comprimidos 3 vezes ao dia e que a loção podia usar em qualquer altura. Diagnóstico rápido. Se tivesse ido directamente à farmácia, a única diferença era que não teria desconto nos medicamentos. E seria mais rápido, claro. É tão bom saber que temos a atenção do médico, que a espera não é em vão. Imagine-se se não fosse assim...

Perguntas, nem uma. Aparentemente sou óptima a explicar o meu caso. É claro que depois de sair de lá é que me lembrei que devia ter mencionado o quisto que tenho na perna. E se calhar a infecção no nervo ciático que tive o ano passado. Mas se calhar também não fazia diferença nenhuma. Afinal, a médica é que sabe, e quem não faz perguntas é porque não tem dúvidas, certo?

Resultado: 1 hora e 3 quartos à espera para uma consulta de 2 minutos. Recebi um relaxante muscular, que vai fazer maravilhas à minha tensão baixa, é desta que vou dormir durante o dia também. As crianças continuaram lá todas à espera, até porque com o jantar de 45 minutos dos srs. doutores, a lista de espera aumentou exponencialmente, e de certeza que houve quem esperasse muito mais tempo que eu, de certeza até à meia-noite. Mas os médicos, coitados, também têm de comer, dois a dois, e isto não é uma escravatura, pois não?